Francisco Cabral
O objectivo deste estudo foi verificar se existem comportamentos diferentes nos processos de admissão e de transferência de doentes nos hospitais em Portugal. Foi analisada a existência de diferenças estatisticamente significativas relativamente às características de complexidade, gravidade e case-mix, utilizando-se, para o efeito, dados de 2000 e 2001, relativos a resumos de alta de 374 000 doentes médicos e cirúrgicos, de 84 hospitais centrais, universitários, especializados, distritais, distritais de nível 1 e IPO, cobrindo os 18 distritos de Portugal continental, constantes da base de dados de registo de doentes da DGS, antes adaptada por forma a incorporar a severidade dos casos. Construíram-se as variáveis:
a) Complexidade (do tratamento e do nível de recursos envolvidos);
b) Severidade (estadio relativamente à doença principal);
c) Case-mix (do hospital, considerando a complexidade e a gravidade das doenças);
d) Distrito (variável de proveniência do doente);
e) Dthosp (variável de localização do hospital);
f) Doentes (variável identificadora da proveniência do doente relativamente à área de influência do hospital);
g) DSP (destino após a alta).
Considera-se o tipo de tratamento (cirúrgico ou médico) e a doença (diagnóstico principal), bem como os níveis de gravidade, e agruparam-se as doenças em quatro grupos:
1. Seis doenças mais graves;
2. Seis doenças menos graves;
3. Seis doenças mais complexas;
4. Seis doenças menos complexas.
Concluiu-se que existe um padrão comportamental genérico que, contrariamente ao esperado, mostra a existência de casos mais complexos mas menos graves em hospitais centrais e universitários quando comparados com distritais e distritais de nível 1 ou quando agrupados com IPO e de novo comparados com distritais e distritais de nível 1. Quando se desceu um nível na análise (tipo de GDH, médico ou cirúrgico), encontraram-se nos hospitais centrais e universitários casos mais complexos (conforme esperado) mas menos graves e verificou-se que os casos de maior gravidade estão concentrados nos distritais e distritais de nível 1. Os IPO concentram complexidade e severidade elevadas relativamente a GDH cirúrgicos. Relativamente a GDH médicos, os hospitais centrais e universitários concentram casos mais complexos e mais graves, conforme esperado. Os casos médicos tratados nos IPO são mais complexos mas menos graves do que os casos observados nos distritais. Quando se desceu ao nível da doença, encontrou--se todo o tipo de situações: esperadas (complexidade e severidade de doenças graves em hospitais centrais, universitários e IPO, bem como doenças menos graves e menos complexas em distritais) e inesperadas (casos mais graves nos distritais e distritais de nível 1 apesar de menos complexos e mais complexos mas menos graves nos centrais, universitários e IPO). Quando se analisaram as movimentações a montante do hospital, verificou-se que existiam comportamentos diferentes nas admissões hospitalares consoante se trata de doentes da área de influência do hospital ou provenientes de fora desta. Os casos mais complexos foram encontrados (em qualquer circunstância) nos hospitais centrais, universitários e IPO, conforme esperado; no entanto, não existem diferenças relativamente ao nível da gravidade dos mesmos entre centrais, universitários, IPO ou distritais. Quando os doentes «vêm» de fora, não se encontraram os casos de maior gravidade nos hospitais centrais, universitários ou IPO, relativamente aos distritais, o que contraria a lógica da referenciação. Os doentes admitidos pelos hospitais distritais revelam sempre menor complexidade mas maior gravidade do que os hospitais de tipo 1. Relativamente aos IPO, a situação é idêntica, os doentes admitidos são complexos de baixa severidade, embora no caso dos IPO não existam tantas diferenças consoante estejamos perante doentes da área de influência ou de fora dela. Quando se analisaram as transferências, verificou-se que os doentes mais complexos e mais graves que são transferidos são aqueles que se encontram nos hospitais centrais e universitários, contrariamente ao esperado. Os hospitais distritais de nível 1 transferem doentes com pouca complexidade e pouca gravidade. Verificou-se também que muitos dos doentes destes hospitais que têm alta para domicílio ou por morte são mais graves do que nos hospitais centrais ou universitários, o que nos mostra que os hospitais distritais de nível 1 não transferem os seus doentes graves. Uma vez que os hospitais centrais e universitários também não admitem os doentes mais graves, conclui-se que ou não funciona a articulação ou há escolha de doentes.
Palavras–chave: acesso aos cuidados de saúde; administração de serviços de saúde; admissão de doentes; grupos de diagnóstico relacionado; selecção adversa; Portugal.